O transporte ferroviário em Santa Catarina vive um momento de incertezas que expõe fragilidades históricas da logística estadual. Apesar de possuir uma malha ferroviária extensa e estratégica, o volume de cargas movimentadas pelos trilhos apresentou retração, revelando um cenário de subutilização que contrasta com o potencial econômico da região. O recuo no transporte ferroviário acende um alerta para o futuro do setor e reforça o debate sobre a dependência excessiva do modal rodoviário.
A ferrovia sempre foi considerada um meio eficiente para o escoamento de grandes volumes de mercadorias, especialmente aquelas de baixo valor agregado e alto peso. Em Santa Catarina, os trilhos ainda desempenham papel relevante no transporte de produtos como grãos, carvão mineral e insumos industriais. No entanto, a concentração em poucos tipos de carga evidencia uma limitação estrutural: a falta de diversificação e de integração da malha com outras cadeias produtivas do estado.
Grande parte da infraestrutura ferroviária catarinense permanece ociosa ou opera de forma parcial. Trechos inteiros encontram-se inativos, seja por falta de manutenção adequada, seja por entraves regulatórios e dificuldades de concessão. Esse quadro compromete a competitividade do modal ferroviário, que acaba perdendo espaço para o transporte rodoviário, mesmo sendo mais oneroso e menos sustentável a longo prazo.
O impacto dessa realidade vai além das estatísticas logísticas. A redução do uso das ferrovias aumenta a pressão sobre as rodovias, já sobrecarregadas pelo intenso fluxo de caminhões. Isso se reflete em custos mais elevados para empresas, maior desgaste da infraestrutura viária e riscos ampliados de acidentes. Além disso, o predomínio do transporte rodoviário contribui para maiores emissões de poluentes, em contraste com o perfil mais eficiente do transporte ferroviário.
Especialistas apontam que a queda no volume transportado não está necessariamente ligada à falta de demanda, mas sim à ausência de investimentos consistentes e de uma estratégia integrada para o setor. A modernização dos trilhos, a recuperação de trechos abandonados e a ampliação da ligação entre regiões produtoras e áreas portuárias são frequentemente citadas como medidas essenciais para reverter o cenário atual.
Nos bastidores da administração pública e do setor produtivo, discute-se a necessidade de um marco regulatório mais claro e atrativo para estimular a participação da iniciativa privada. Modelos de concessão mais flexíveis, combinados com incentivos à modernização da infraestrutura, poderiam transformar a ferrovia em um eixo logístico mais competitivo. A experiência de outros estados mostra que, quando bem estruturado, o transporte ferroviário reduz custos, amplia a eficiência e fortalece a economia regional.
Santa Catarina, com sua forte base industrial e agrícola, tem muito a ganhar com um sistema ferroviário mais ativo. A proximidade com portos estratégicos torna o uso dos trilhos ainda mais relevante para o escoamento da produção destinada ao mercado externo. A falta de integração plena entre ferrovias e terminais portuários, no entanto, limita esse potencial e mantém gargalos logísticos que afetam a competitividade do estado.
O momento atual exige mais do que diagnósticos. Reverter a queda no transporte ferroviário passa por decisões políticas, planejamento de longo prazo e articulação entre governos, concessionárias e setor produtivo. Sem esse esforço conjunto, os trilhos catarinenses correm o risco de permanecer como símbolos de oportunidades perdidas, enquanto o estado continua dependente de um modelo logístico mais caro e menos eficiente.
O desafio está posto: transformar a ferrovia de um recurso subutilizado em um verdadeiro motor de desenvolvimento. A resposta a esse impasse poderá definir não apenas o futuro do transporte em Santa Catarina, mas também a capacidade do estado de crescer de forma sustentável e competitiva nos próximos anos.
